Desde sempre, não sei bem quando, eu tenho um apreço por observar as pessoas. A coisa é tanta que me dou ao trabalho de sacar o caderninho da bolsa - amassado coitado, mal custou dois pilas e sonha em ser um moleskine - e escrever qualquer coisa.
Primeiro foi aquele cara, aquele que tinha todo jeito de encontro às escuras. "Vou estar com uma camisa pólo verde". Bonitinho ele. Olhava pras moças e sorria - oi? - depois esperava um pouquinho por uma retribuição. Na falta dela, dava mais uns passos. Ficou um tempão por ali, perto da livraria, depois subiu, desceu, sorriu mais, perdi de vista. Na última vez ele continuava sozinho.
Quase ao meu lado, uma senhora que era, com certeza, diretora de escola, e das escolas ricas. Não sei explicar, era e pronto. Uma camisa branca bem cortada fazia fundo pra um colar colorido bonito, uma maquiagem viva, mas sem exageros. Ela não conseguia ficar sentada por muito tempo. Levantou e comprou uma água. Levantou e foi até a livraria. Voltou e folheou o jornal ainda em pé. Trocou meia dúzia de palavras com o marido e saiu, pra voltar com um pão de queijo. Comeu e abriu a mala, revirou até encontrar um livro que não parou pra ler. Falou com o marido de novo. Ele, mudo. Absorvido por um livrinho de Sudoku enquanto eu queria oferecer tranquilizantes pra sua esposa.
E lá vem de novo aquele homem do óculos estranho. É daqueles que têm lentes de sol e grau, e a parte escura pode ser levantada, sabe? Fica como uma aba, coisa feia. Ele anda por ali, tem um jeitão de gringo. Ele rebola um pouco. Aliás, ele rebola bastante, com a camiseta preta propositadamente pra dentro do jeans só na parte de trás. Parece daqueles que levam um tempão se arrumando pra parecer que não se arrumaram. Deve lustrar a careca.
A moça do Big Brother é bonita. Mentira. É linda. E eu achava ela bem feia na TV. Sempre falei daquele maxilar muito marcado. Que nada! Linda, sorridente e com uma invejável paciência pra atender a todos os tiozões babões ao redor dela, tirando fotos com seus celulares que provavelmente custam mais do que o meu salário.
Outra vez aquele bonitinho. Não o do blind date aeroportuário, outro. O cabelo, enrolado feito o meu, tenta fugir do dispensável chapéu de Alex de Large. A carinha de "eu não tenho muito mais do que vinte anos" já faz com que ele seja o amor da minha vida esta manhã. Ele tira dois exemplares da L&PM da mochila… não posso ver os títulos mas já arrisco dizer que ele é, na verdade, minha alma gêmea esta amanhã, ali, tomando uma água mineral.
Já é tempo de me encaminhar pro avião. Mas não sem ver passar Oscar, o do basquete. Ele é grande - é só o que eu tenho a dizer. Preciso guardar a caneta e o caderno.
[…]
Eu juro que não consigo entender porque o camarada ali da frente fica pulando do assento 3A para o 3F, e voltando. Na decolagem, inclusive. Ouviu uns desaforos da aeromoça, mas foi como se não tivesse ouvido. Ele simplesmente não sossega.
Tô querendo fechar o caderno e abrir a revista. Ainda não li a entrevista da Luciana Gimenez e quer saber? Gosto dela. Não do programa da televisão, mas vou com a cara dela. Acho que começou quando todo mundo rotulava de burra e coisa tal. Burras são as unanimidades, enfim. E por falar em revista, o que é essa madame ao meu lado, levantando a dela toda vez que percebe que eu olho pra janela?
* postado daqui, escrito lá.