Cecília. Leia. Seja amigo. Siga. Escreva. Veja. Leia mais.


___________________________________________ 08/06/09 @ 10:02   Comentários 1

Post de dia dos namorados - 2 de 7

Eu saía da escola todos os dias, lá pelas onze e tanto, com aquela calça do uniforme cor de beterraba (medonha), muitas vezes com meu moletom azul do Sonic Youth (não tirava nunca) e ia esperar a Maris na saída do trabalho dela. Tinha 15, 16 anos, por aí.

Ele, que trabalhava no mesmo lugar, saía, passava por mim e dava um aceno de cabeça. No máximo um "oi".

E eu ficava lá sonhando com o dia em que ele - bem mais velho, do tipo inteligente, meio desligado, e todo diferentão - pararia pra falar comigo (imagine só!)… até o dia em que ele parou (e o mundo parou junto). Convidou-me pra almoçar (lindo!). A família achou estranho: um adulto! E no dia seguinte fui à aula com a cabeça cheia de recomendações.

De início, ganhei margaridas e devo ter ficado sem graça. Lembro que meu almoço foi um lanche do Mc Donald’s. O dele foi um prato cheio de salada. Não sei o que conversamos. Mas tenho certeza de que não nos tocamos em nenhum momento, nem ao menos demos as mãos.

No dia seguinte, fiquei com uma mistura de repulsa e vergonha. E primeira passou. Ele viajou pela América do Sul, me trouxe uma bolsa linda mas, por timidez, segundo me disseram, não me entregou pessoalmente. Pela mesma razão, eu nunca agradeci.

A bolsa eu usei por anos.

Nunca mais nos falamos.

 

 

Ele até poderia ter boas intenções, mas eu gostava mais do meu amor platônico de adolescência. Aquele, que sumiu em hambúrguer e refrigerante.


texto em: outros escritos, dia dos namorados

___________________________________________ 04/04/09 @ 22:42   Comentários 1

São Paulo - 4/4 *

Desde sempre, não sei bem quando, eu tenho um apreço por observar as pessoas. A coisa é tanta que me dou ao trabalho de sacar o caderninho da bolsa - amassado coitado, mal custou dois pilas e sonha em ser um moleskine - e escrever qualquer coisa.

Primeiro foi aquele cara, aquele que tinha todo jeito de encontro às escuras. "Vou estar com uma camisa pólo verde". Bonitinho ele. Olhava pras moças e sorria - oi? - depois esperava um pouquinho por uma retribuição. Na falta dela, dava mais uns passos. Ficou um tempão por ali, perto da livraria, depois subiu, desceu, sorriu mais, perdi de vista. Na última vez ele continuava sozinho.

Quase ao meu lado, uma senhora que era, com certeza, diretora de escola, e das escolas ricas. Não sei explicar, era e pronto. Uma camisa branca bem cortada fazia fundo pra um colar colorido bonito, uma maquiagem viva, mas sem exageros. Ela não conseguia ficar sentada por muito tempo. Levantou e comprou uma água. Levantou e foi até a livraria. Voltou e folheou o jornal ainda em pé. Trocou meia dúzia de palavras com o marido e saiu, pra voltar com um pão de queijo. Comeu e abriu a mala, revirou até encontrar um livro que não parou pra ler. Falou com o marido de novo. Ele, mudo. Absorvido por um livrinho de Sudoku enquanto eu queria oferecer tranquilizantes pra sua esposa.

E lá vem de novo aquele homem do óculos estranho. É daqueles que têm lentes de sol e grau, e a parte escura pode ser levantada, sabe? Fica como uma aba, coisa feia. Ele anda por ali, tem um jeitão de gringo. Ele rebola um pouco. Aliás, ele rebola bastante, com a camiseta preta propositadamente pra dentro do jeans só na parte de trás. Parece daqueles que levam um tempão se arrumando pra parecer que não se arrumaram. Deve lustrar a careca.

A moça do Big Brother é bonita. Mentira. É linda. E eu achava ela bem feia na TV. Sempre falei daquele maxilar muito marcado. Que nada! Linda, sorridente e com uma invejável paciência pra atender a todos os tiozões babões ao redor dela, tirando fotos com seus celulares que provavelmente custam mais do que o meu salário.

Outra vez aquele bonitinho. Não o do blind date aeroportuário, outro. O cabelo, enrolado feito o meu, tenta fugir do dispensável chapéu de Alex de Large. A carinha de "eu não tenho muito mais do que vinte anos" já faz com que ele seja o amor da minha vida esta manhã. Ele tira dois exemplares da L&PM da mochila… não posso ver os títulos mas já arrisco dizer que ele é, na verdade, minha alma gêmea esta amanhã, ali, tomando uma água mineral.

Já é tempo de me encaminhar pro avião. Mas não sem ver passar Oscar, o do basquete. Ele é grande - é só o que eu tenho a dizer. Preciso guardar a caneta e o caderno.

[…]

Eu juro que não consigo entender porque o camarada ali da frente fica pulando do assento 3A para o 3F, e voltando. Na decolagem, inclusive. Ouviu uns desaforos da aeromoça, mas foi como se não tivesse ouvido. Ele simplesmente não sossega.

Tô querendo fechar o caderno e abrir a revista. Ainda não li a entrevista da Luciana Gimenez e quer saber? Gosto dela. Não do programa da televisão, mas vou com a cara dela. Acho que começou quando todo mundo rotulava de burra e coisa tal. Burras são as unanimidades, enfim. E por falar em revista, o que é essa madame ao meu lado, levantando a dela toda vez que percebe que eu olho pra janela?

 

* postado daqui, escrito lá.


texto em: outros escritos, viagem

___________________________________________ 03/02/09 @ 01:19   Comentários 2

Guardados

Parou pra arrumar as gavetas, como sempre, e achou ali uma porção de coisas - coisinhas, olha essa, e aquela e ah! pensou que nem tinha mais isso aqui! - que há tempos já não via. Deu uma sacudida, colocou no sol. Tudo aquilo que a mãe lhe ensinou a fazer pra tirar o cheiro de guardado. Quando ficou bonito de novo, olhou com gosto, sorriso na cara - agora sim! E o afeto durou… o tempo de perceber que só queria dobrar e engavetar outra vez, bem no fundo. Jogando algo pesado por cima, de preferência…


texto em: outros escritos

___________________________________________ 27/01/09 @ 16:10   Comentários 5

O caso das meias

- Óquei, levanto e pego o café se tu tirar essas meias horríveis.
- Mas o que porra tem de errado com as minhas meias?
- São meias. A única coisa que não se deve vestir na cama com uma mulher.
- E o frio nos pés, como eu resolvo?
- Puxa o cobertor, mais da metade tá no chão…
- Eu gosto das meias.
- E eu dessa tesoura.
(…)
- Peraí! Que tu tá fazendo? Puta merda! Para! Minhas meias!
- Tudo é passado, amor…

 

**********

 

- Óquei, levanto e pego o café se tu tirar essas meias horríveis.
- Mas o que porra tem de errado com as minhas meias?
- São meias. A única coisa que não se deve vestir na cama com uma mulher.
- E o frio nos pés, como eu resolvo?
- Calça os sapatos.
- Mas eu tô deitado. Deitado e de meias.
- Calça os sapatos e vai embora. Agora.
- Que merda! Que drama é esse porque eu não quero tirar as meias? Como é que eu vou embora, nem vestido eu não tô?
- Tá de meias…

 

**********

 

- Óquei, levanto e pego o café se tu tirar essas meias horríveis.
- Mas o que porra tem de errado com as minhas meias?
- São meias. A única coisa que não se deve vestir na cama com uma mulher.
- Ah! mas olha como essas aqui são bonitinhas, até combinam com o lençol!
- Ei! essas meias são minhas, não são?
- São?
(…)
- Por que tu anda usando as minhas meias?
- Por que tu tá revirando a minha mochila?
- Essa camisola! Pelo amor de Deus! Minha camisola! E essas calcinhas? Seu louco! Essas calcinhas aqui, isso custa caro! Elas nem sequer são minhas!
- São minhas.


texto em: outros escritos

___________________________________________ 12/11/08 @ 00:44   Comentários 3

O rei e a rainha do baile

O menino mais bonito da minha sala olhou para a menina mais bonita, e agora já não conseguem olhar em outra direção. Eles se escondem mal escondidos, daquele jeito de quem quer muito que todo mundo saiba, mas com aquela vergonhazinha que dá um frio-calor por dentro da gente. Ele fixa os olhos nela e fala sorrindo, encantamento não disfarçado. Ela finge que não percebe, depois finge que acabou de perceber e, ruborizada, desvia o olhar e mexe a cabeça assim, meio pra baixo, meio de lado, cara de feliz.


texto em: facul, outros escritos

<< Posts anteriores     Início